quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Sombras de Goya: A Inquisição Espanhola e O "Furacão" Francês

   Em "Sombras de Goya", o ponto de vista do pintor espanhol Francisco Goya foi a escolha do diretor Milos Forman para contar a história da Espanha de finais do século XVIII e princípio do XIX. A escolha de tal personagem, como uma espécie de observador dos acontecimentos que varriam a Espanha da época, é perfeita, já que a obra de Goya retrata a Europa da Idade Moderna com grande expressão e envolvimento. A obra do pintor, que vai desde retratos e paisagens a comédias e cenas do cotidiano, também convergiu para as mudanças que afetavam a Espanha de sua época, passando para a representação de deuses, demônios, cenas mitológicas e até a sátira. Portanto, trata-se de um personagem rico a ser explorado como epicentro do enredo do filme, devidamente como aponta o título da película. Assim, acompanhamos Goya em suas relações com a realeza espanhola e até com membros da Inquisição. Com esta última, o pintor tinha uma relação dúbia, denunciando os abusos, por um lado, através de suas gravuras e, por outro, procurando ficar distante ao espectro inquisidor e suas possiveís sanções. O filme segue e, então, temos aquela reviravolta no enredo: a adolescente Inés Bilbatua, musa do pintor, é presa sob falsa acusação de heresia. Agora, Goya deve ponderar como agir, arriscando seu nome e seu trabalho para tentar ajudar Inés ou capitulando aos termos da Inquisição. Ele procura, então, o meio termo e tenta apelar à influência de um de seus clientes, Frei Lorenzo Casamares. O que Goya desconhecia era que Frei Lorenzo era um dos principais instigadores da Inquisição Espanhola, sendo aquele personagem que converge a identidade do pensamento dos clérigos espanhóis. Muito próximos da realeza e de suas decisões, os inquisidores exploravam os tribunais do Santo Ofício para extorquir vantagens políticas e econômicas na Espanha de finais do século XVIII. Denúncia, perseguição e tortura eram os modos de agir da Inquisição, seja com uma base fundada ou não, sendo esse último o caso de Inés Bilbatua.
   A musa de Goya, vivida por Natalie Portman - o eterno pitel, passa pelos processos da Inquisição, sendo primeiramente questionada e, ao negar as acusações, prossegue para a tortura. Frente à dor, ela admite as acusações infundadas de que seria judia e, então, é lançada aos porões da Inquisição, onde presa e desesperada é, ainda, estuprada por Frei Lorenzo - não, o diretor do filme não é o Almodovar (diretor espanhol conhecido por seus enredos trágicos). Logo, é exatamente  quem Goya clamava por ajuda, Frei Lorenzo, quem explora a condição fragilizada de Inés, ao mesmo tempo em que aceita doações generosas da família da garota em nome da Igreja. Goya tenta enterceder em nome de Inés e dos Bilbatua, mas apenas as riquezas da família Bilbatua são aceitas e Inés continua confinada, sob o pretexto de que confessou sua própria culpa. Ela não poderia ser solta, mesmo tendo confessado apenas devido à tortura. Ciente disso, o pai de Inés providencia para que, sob tortura, Frei Lorenzo admita por escrito que possui parentesco com os macacos, algo abominável na visão dos clérigos e da grande maioria da população na época. Acreditava a família Bilbatua que, dessa maneira, libertariam Inés, expondo como, através da tortura, qualquer um é capaz de ceder, até mesmo um homem do clero. Contudo, com tal ato, apenas conseguiriam excomungar Frei Lorenzo da Igreja espanhola, tornando-o um pária devido ao documento que assinou. Portanto, não foi Goya e muito menos Frei Lorenzo que libertaram Inés, mas sim o "furacão" francês, o qual invadira a Espanha quinze anos após esses acontecimentos.
   Emergiu, após a Revolução Francesa, uma liderança inconteste na França: a figura do mérito - comandante de tropas aos 25 anos de idade e imperador dez anos mais tarde - Napoleão Bonaparte, que ameaçou todas as monarquias da Europa ao assumir o comando da França e bradar os ideais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" para além das fronteiras francesas. Dessa forma, defendia seus interesses conquistadores sob o pretexto de difundir a Revolução Francesa para o resto do continente europeu. Assim, não foi diferente com a atrasada Espanha, a qual, uma vez invadida, se viu liberta do julgo da Inquisição, mas que estava, agora, acorrentada aos desejos do imperador francês. Nesse contexto, Inés encontra-se liberta, porém, atônita do isolamento, desconhece o que aconteceu e, até mesmo, o estado de guerra causado pela invasão francesa. Inés procura os vestígios de sua vida, sua família, Goya e, sobretudo, a filha que fora concebida na relação com Frei Lorenzo. Personagem que retorna triunfante à Espanha, Lorenzo é um homem reformado, forjado pelos ideais iluministas e da Revolução Francesa. Ele retorna à Espanha não mais como homem de fé e servo da Inquisição, mas sim como um filho da revolução e um encarregado de Napoleão de julgar os abomináveis atos da Inquisição Espanhola. Tah bom né?! Já falei demais sobre o filme. Agora, vê se tu assiste e descobre como isso termina...

 A família real espanhola.
Representação das execuções perpetuadas pelo exército francês na Espanha.
Visão de Goya dos julgamentos da Inquisição Espanhola. 
Auto-retrato do pintor.
       
  

terça-feira, 17 de julho de 2012

Pré-Simulado de Brasil

1 - O ideário político de conteúdo liberal da Inconfidência Mineira apresentava algumas contradições, dentre elas:
a) manutenção do regime de trabalho escravo;
b) adoção de um regime político republicano;
c) estabelecimento de uma Universidade em Vila Rica;
d) separação e independência dos poderes executivo, legislativo e judiciário;
e) manutenção dos antigos privilégios concedidos às companhias de comércio;

2 - A transferência do governo português para o Brasil, em 1808, teve ligação estreita com o processo de emancipação política da Colônia, porque:
a) introduziu as ideias liberais na Colônia, incentivando várias rebeliões;
b) reforçou os laços de dependência e monopólio do sistema colonial, aumentando a insatisfação dos colonos;
c) incentivou as atividades mercantis, contrariando o interesse da grande lavoura;
d) instalou no Brasil a estrutura do Estado português, reforçando a unidade e a autonomia da Colônia;
e) favoreceu os comerciantes portugueses, prejudicando os brasileiros e os ingleses ligados ao comércio de importação;

3 - A maior razão brasileira para romper os laços com Portugal era:
a) evitar a fragmentação do país, abalado por revoluções anteriores;
b) garantir a liberdade de comércio, ameaçada pela política de recolonização das Cortes de Lisboa;
c) substituir a estrutura colonial de produção e desenvolver o mercado interno;
d) aproximar o país das repúblicas platinas e combater a Santa Aliança;
e) integrar as camadas populares ao processo político e econômico;

4 - A independência do Brasil e das colônias espanholas na América tiveram como elemento comum:
a) as propostas de eliminação do regime escravista imposto pela metrópole;
b) o caráter pacífico, uma vez que não ocorreu a fragmentação política do antigo bloco colonial ibérico;
c) os efeitos do expansionismo napoleônico, responsável direto pelo rompimento dos laços coloniais;
d) o objetivo de manter o livre-comércio, como um primeiro passo para desenvolver a industrialização na América;
e) a efetiva participação popular, uma vez que as lideranças políticas coloniais defendiam a criação de Estados democráticos na América;

5 - Com a abdicação do imperador D. Pedro I em 1831, o fracasso do primeiro reinado tomou corpo. Em relação a isso, considere os fatos a seguir:
I. A imigração europeia para o Brasil ocorrida nesse período.
II. A eclosão da guerra na Província Cisplatina (1825-1828) contra as Províncias Argentinas, a qual consumiu recursos do Estado em formação, e cujo principal resultado foi a criação da República Oriental do Uruguai, em 1828.
III. A indisposição do Imperador nas negociações com os deputados das províncias do Brasil, que levou ao fechamento da Assembleia Constituinte de 1823, e à imposição de uma carta constitucional em 1824.
IV. A queda do gabinete dos Andradas, que levou o Imperador a se cercar de inúmeros portugueses, egressos de Portugal ainda ao tempo do governo de D. João VI.
Tiveram influência direta no desfecho do primeiro reinado os fatos apresentados em:
a) I, III e IV.
b) III e IV.
c) II, III e IV.
d) I, II e III.
e) I e II.









GABARITO: 1-A;2-D;3-B;4-C;5-C;

quarta-feira, 11 de julho de 2012

1808 & 1822: a pair of two double books

   "O glito do Ipiranga"
   As duas datas fundamentais, do processo de independência brasileira, são os títulos dos livros, do jornalista paranaense Laurentino Gomes. Estamos acostumados a encontrar dificuldades na leitura de textos de caráter histórico, inclusive sono, mas esse não é o caso de "1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil" e "1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado". Mas sôr, sor, olha aí até os títulos são extensos e os livros têm mais de 300 páginas cada! Palma, palma não priemos cânico, se te sobra tempo, recomendo a leitura completa dessas obras, caso contrário, a sempre a possibilidade de ler os capítulos que lhe interessam e daquele conteúdo que ficaram algumas dúvidas. Esse é o grande trunfo do autor, os capítulos se encerram em si mesmos, obviamente eles mantêm conexão com a narrativa do livro, mas os próprios títulos de alguns capítulos demonstram esse esforço facilitador: "O Rio de Janeiro", "A nova corte", "O Vietnã de Napoleão", "O Grito", "As cortes" e "O trono e a constituinte". Enfim, os dois livros tem uma narrativa tranquila e despojada, ao mesmo tempo em que se apoiam em bibliografia consagrada, de História do Brasil e Geral. Assim "1808" e "1822" prestam um grande serviço ao mastigar esses conteúdos tão importantes para nossa prova. É uma pena, que apesar de o vestibular da UFRGS estar evoluindo na questão interdisciplinar (apresentando, por exemplo, questões de Literatura e até de Geografia dentro da prova de História), as leituras obrigatórias continuem estanques, não dando espaço a livros que tratem mais diretamente da História do Brasil e que sejam de fácil compreensão.

Abaixo link para versão digital de "1808":


Abaixo link para página de divulgação de "1822" da para baixar o 1º capítulo, que é muito bom para um panorama pós-Napoleão (obs: não consegui o link do ebook e olha que procurei bastante):

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Abertura das Olímpiadas 2012: Não Perca


Veio britânico, caracterizado, segurando a medalha olímpica.
   
   Apesar dos grandes espetáculos das mais recentes cerimônias de abertura da Grécia (2004) e China (2008), esse ano promete muito mais que apenas aquele desfile de atletas e bandeiras. Só a presença de Sir James Paul McCartney, como uma das atrações principais, já seria motivo suficiente para acompanhar a cerimônia de abertura dos jogos olímpicos de Londres, no dia 27 de julho, mas não para por aí. Estamos acostumados a esperar um belo espetáculo artístico e aquele clima de "espírito olímpico" (seilá o que isso significa, mas falam tanto disso que resolvi botar aqui no texto), tudo já parece muito bacana, mas com a direção do evento, a cargo do diretor de cinema Danny Boyle, as expectativas aumentam, ao menos as minhas. Mais conhecido mundialmente pelo seu filme ganhador do Oscar "Quem quer ser um Milionário?", o diretor inglês, com certeza é capaz de oferecer algo de diferente para cerimônia. Os fogos de artifício e a pompa obviamente estarão presentes, só que o olhar frenético e ao mesmo intimista de Boyle darão aquele toque de imperdível ao espetáculo. A abetura da futura Olímpiada do Rio de Janeiro (2016) também, me parece, que não irá prometer muito mais que um sambalelê, uma Claudia Leite ou Ivete Sangalo. Logo, vale a pena se juntar, a estimativa de cerca de 4 bilhões de espectadores, para a transmissão do início dos jogos de 2012. Fica a dica então, e não deixe de conferir mais da obra de Boyle, que conta também com filmaços como o recente "127 Horas" e os mais antigos "A Praia" e "Trainspotting", esse último, disponível na íntegra e com legendas no nosso querido YouTube.
Segue o link para o filme: http://www.youtube.com/watch?v=g_O2nxf07aQ      

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Maria Antonieta: Curtindo a Vida Adoidada

  Alguém poderia dizer, logo de cara, que o filme “Maria Antonieta" é um nonsense histórico, afinal o figurino é exagerado para época perfazendo todo o arco-íris; os bailes da corte francesa, obviamente, não eram embalados por Strokes e The Cure; apenas a nobreza francesa é representada, onde estariam as outras classes sociais? E a crítica das críticas: não existiam tênis All Star. Ok, mas esqueceram que, se fossem as opções diferentes, ou seja, obedecendo supostas regras para um filme de época, o produto final seria ainda tão fictício quanto o "Maria Antonieta" da diretora Sofia Coppola. Então, o mérito dessa produção de 2005 reside no descaso, que trata aquilo que outros filmes que abordam temáticas históricas de época tanto se preocupam: a busca do como foi. Menos preocupado com um retrato histórico acurado, e sim em demonstrar a personalidade e as relações da personagem-título "Maria Antonieta", o filme termina por nos prestar um ótimo serviço para o estudo histórico. Ao centrar-se na vida de Antonieta dentro da corte francesa, percebemos o completo estado de alienação em que viviam tanto o casal real, quanto os nobres que os cercavam em Versalhes. O povo francês que não aparece no filme, a não ser em uma cena final de forma estilizada, passava por imensas privações e dificuldades, e, ao escolher não representá-los, a diretora está quase nos dizendo "vejam que Maria Antonieta e a nobreza da França estavam completamente alheios às necessidades desses franceses, que sustentavam a vida de fausto da corte".
   O filme segue, assim, a trajetória da última rainha francesa, desde sua saída da Áustria até o exílio forçado da família real, aguardando o julgamento pelos revolucionários franceses. Fica a forte impressão de que a vida de festas, jogos, compras e desinibição terminaram por selar o destino da monarquia francesa. Os gastos excessivos da rainha não eram nada se fossem comparados aos gastos com guerras (lembrando, também, o custo humano) que a França envolveu-se durante o século XVIII, inclusive, contrariando seu status de metrópole, chegou a apoiar a luta pela independência dos EUA. Dessa forma, o absolutismo francês, seguindo uma herança da centralização de Luís XIV, trilhou um caminho quase que irreversível de exploração social demasiada. Igreja e nobreza se apoderavam dos impostos do 3º Estado (camponeses, sansculottes e burgueses) e os usavam ao bel prazer. A rainha e a nobreza até puderam viver bons anos num ritmo de "curtindo a vida adoidado", mas o resultado final foi a Revolução e o triunfo do espirito iluminista. Portanto, vale a pena o filme para ver como "teria sido" essa curtição, regada a rock'n'roll, muita champagne e os famosos brioches da Antonieta.
    
 Kirsten Dust, no melhor estilo rainha cahorra.
O polêmico All Star.

terça-feira, 19 de junho de 2012

A Outra: um rei salafrário e o pecado original

Pintura retratando o rei salafrário.
  
    Sempre gosto de ressaltar que os filmes não tem obrigação alguma de agradar um profº de História ou os historiadores em geral. Afinal, essas obras são regidas pela arte e fazem parte de uma indústria onde a preocupação com o lucro é muito importante. Então, a análise de "A Outra" não é para apontar erros ou algo assim, e sim para procurar caminhos interessantes de se entender o filme e suas representações do episódio histórico do envolvimento do rei inglês Henrique VIII com as irmãs Bolena. Vamos começar pelo perfil do rei: logo de cara, percebe-se que possui o rei na barriga¹ e, apesar de seu casamento com Catarina de Aragão, princesa espanhola, ele age como o Lazaro Ramos na última novela das 20h. Assim, Henrique VIII usa e abusa das mulheres da corte inglesa. Sua principal insatisfação com a esposa é a falha em lhe conceder um herdeiro masculino que pudesse dar continuidade ao legado dos homens da família Tudor. Dessa forma, ele "afoga" as mágoas, na cama, com o mulheril inglês. Percebendo esse fato, o patriarca da família Bolena (família nobre, mas ainda buscando uma ascendência aos escalões mais próximos da monarquia) coloca em prática um plano muito simples: suas filhas devem agradar o monarca e conquistar sua influência absolutista em prol da família. O reinado de Henrique VIII é pleno na Inglaterra, tendo ele assumido a coroa de seu pai em 1509, mas a centralização dos Tudor acabaria por ganhar contornos mais concretos através da união da vontade carnal do rei com as necessidades político econômicas do reino.
    No filme, o plano dos Bolena prossegue com o encantamento do rei por Maria (Johansson); os dois tem um caso intenso e a prole ilegítima de Henrique VIII continua a aumentar, mas a ingenuidade de Maria não permite que ela alcance a influência sobre o rei, a qual havia sido planejada por seu pai. A irmã Ana (Portman) entra em ação nesse momento e, no melhor estilo femme fatale, Ana seduz o rei, tanto com promessas carnais como com a certeza de um herdeiro masculino para a coroa inglesa. O que ela pede em troca? Nada mais nada menos que a posição de rainha, o que inferia no divórcio do rei e Catarina de Aragão. "A Outra" trabalha exaustivamente a ideia de que Ana Bolena, apenas ela, teria manipulado Henrique VIII para conseguir dar forma aos seus planos. O filme acaba por aproximar o episódio histórico em questão da narrativa bíblica do pecado original, em que Eva convence Adão a provar do fruto proibido. Por girar em torno da relação do rei com as duas irmãs, é natural que o filme não desse atenção aos outros fatores que motivaram as ações de Henrique VIII, os quais o levaram a pedir o divórcio. Primeiro fator: era certo que Catarina não podia mais lhe dar herdeiros²; segundo: ao propor o divórcio para a Igreja Católica, estaria numa posição confortável frente a qualquer resposta, ou seja, sendo sim, o rei poderia exercer sua vontade pessoal e afirmar-se contra a monarquia espanhola da qual descendia Catarina de Aragão (a Espanha era concorrente direta dos ingleses na exploração colonial e na disputa por mercados na época de predominância das práticas mercantilistas na Europa), e sendo não, como foi o caso, o rei via-se livre em uma época de contestação reformista (vide Luteranismo e Calvinismo) para romper com o clero católico e dar início a sua própria Igreja. Dessa forma, surgia a Igreja Anglicana na Inglaterra. E mais: o rei tornava-se um monarca ainda mais poderoso, pois com o Ato de Supremacia (1534), agora ele, além de chefe de Estado, era também o encarregado da nova religião inglesa. As terras dos católicos foram tomadas em nome do rei e distribuídas entre aqueles que apoiavam as medidas de Henrique VIII e também vendidas para nobres e burgueses influentes do reino.
    As ações em curso afirmaram a centralização do poder dos Tudor, mas o caso entre Ana Bolena e o rei acabaria mal. Ela falhou em sua promessa de fornecer um herdeiro masculino e, rapidamente, caiu em desgraça com o rei. "A Outra", inclusive, dá margem às acusações que levaram à condenação e à morte de Ana e de seu irmão George, com o qual teria cometido incesto. O filme retrata uma possível ligação entre os irmãos, que servira de pretexto em soma a uma série de outras acusações de traição e bruxaria que o rei elencaria contra Ana, no intuito de casar novamente³. Dessa vez, ele casaria com a nobre Joana Seymour e, assim, finalmente iria adquirir sua prole masculina. Ana Bolena morre executada, assim como todos aqueles que contestaram as ações centralizadoras do rei. Foram muitos os que se opuseram ao rompimento com o catolicismo e ao excessivo poder político que ele ganhara com o Ato de Supremacia. Mas o destino dos opositores do rei fora a forca e a lâmina do machado. A prole de Ana, Elizabeth, desgraçada pelo destino da mãe, ainda viria a cumprir o destino de se tornar rainha e afirmar a religião Anglicana como a professão do Estado Absolutista inglês. É o que o filme demonstra, no seu final, e o relato histórico confirma.
¹ Não literalmente, pois a escolha do ator excluiu a fisionomia obesa do monarca e acabou por encontrar um par mais balanceado, no esbelto Eric Bana, para as irmãs Bolenas, interpretadas por Scarlett Johansson e Natalie Portman (dois pitélzinhos).
² A rainha Catarina ficou grávida pelo menos sete vezes (a última vez em 1518), mas só uma das crianças, a princesa Maria, sobreviveu à infância.
³ No total foram 6 os casamentos do rei salafrário.

As irmãs pitél em "A Outra".